Acidente Voepass: relatório final aponta que empresa, pilotos e Anac falharam, e diz que avião não poderia ter decolado

  • 23/07/2026
(Foto: Reprodução)
Avião da Voepass que caiu não poderia ter decolado, aponta Cenipa O relatório final da investigação sobre a queda do avião da Voepass apontou falhas da companhia aérea, dos pilotos e da fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), além de indicar que a aeronave tinha uma falha que deveria impedir que ela voasse em condição de previsão de chuva. O acidente matou 62 pessoas, em 9 agosto de 2024, e é o maior desastre aéreo brasileiro desde 2007. O resultado da apuração do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira (FAB), foi apresentado nesta quinta-feira (23). LEIA TAMBÉM: Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass Cenipa cita conversas pessoais de pilotos e 'esquecimento' do sistema de degelo Relembre queda de avião que matou 62 pessoas em 2024 Anac diz que vai analisar recomendações em até 4 meses Veja como foi divulgação do relatório em tempo real Tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa para a investigação, disse durante a apresentação que existia uma "cultura de normalização de desvios" na companhia aérea. Durante a investigação, o Cenipa analisou 1.206 voos feitos entre agosto de 2023 até o dia da queda. Em nota, a Voepass afirmou que vai se manifestar posteriormente, depois que tiver acesso à íntegra do relatório final. Veja abaixo, em ponto a ponto, o que foi apresentado pelo Cenipa: Não poderia ter decolado Falhas na fiscalização da Anac Falhas não reportadas no sistema de degelo em voos na véspera Pilotos conversavam sobre assuntos pessoais e esqueceram de sistema de degelo Cultura de normalização de desvios da Voepass Não poderia ter decolado, diz Cenipa Segundo a investigação, a aeronave não poderia ter decolado em horário com previsão de chuva porque tinha um erro no sistema de limpador de para-brisa. O turboélice voou entre oito e dez minutos em uma área com condições de gelo severo. O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa para essa investigação, apontou que antes do voo de Cascavel a Guarulhos, a aeronave apresentava 10 itens com falhas - uma delas no limpador de para-brisa. "Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa", disse Fróes. "A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", completou. Fiscalização da Anac Cenipa diz não se recordar da Anac ser fator contribuinte para outro acidente aereo O Cenipa apontou que auditorias e inspeções realizadas pela Anac antes do acidente revelaram "diversas não conformidades" relacionadas à manutenção das aeronaves da Voepass, à rastreabilidade de componentes e à prática recorrente de reporte informal de panes - ou até o não reporte. No entanto, ainda segundo o Cenipa, essas constatações "não foram capazes de auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos". Com isso, as investigações do órgão concluíram que os problemas apontados pela Anac permitiram a continuidade das operações da Voepass, "apesar das degradações dos níveis de segurança". Em nota, a Anac afirmou que vai analisar as conclusões do Cenipa em até 120 dias. Falhas no sistema de degelo Coletiva do Cenipa responde perguntas de jornalistas sobre acidente com avião da Voepass Gabriella Ramos/g1 O avião também apresentou falhas no sistema de degelo das asas em dois voos na véspera da queda, mas a tripulação responsável não registrou em diário de bordo, apontou o tenente-coronel. Fróes afirmou que, em voo na véspera da queda, o avião decolou de Guarulhos com destino a Ribeirão Preto, houve uma falha no sistema responsável por eliminar o gelo acumulado nas asas. Segundo o tenente-coronel, a tripulação, que não era a mesma do voo que caiu, não reportou isso em diário de bordo. "A tripulação deveria ter relatado no diário de bordo essa falha para que a manutenção, após o pouso, pudesse verificar o que estava acontecendo com o sistema. O que a comissão verificou é que após o pouso em Ribeirão Preto, na noite anterior, essa falha não foi registrada no diário de bordo da aeronave", disse Fróes. O Cenipa também informou que houve falha de outro tipo em um terceiro voo antes da queda. Este também não foi reportado em diário de bordo. Pilotos conversavam sobre assuntos pessoais e esqueceram de sistema de degelo Cenipa cita conversas pessoais de pilotos e "esquecimento" de acionar sistema de degelo O tenente-coronel também aponta que os pilotos da Voepass responsáveis pelo avião que caiu em Vinhedo conversavam sobre assuntos pessoais durante o voo e esqueceram de ligar o sistema de degelo, mesmo após alertas emitidos pela aeronave. O avião por diversas vezes acionou o alerta electronic ice detector, que indica situação favorável para acúmulo de gelo na aeronave e deveria levar ao acionamento de protocolos, como mudança de velocidade e acionamento do sistema de degelo. No entanto, segundo Fróes, durante toda a gravação da caixa-preta os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais. "Há uma grande parte das gravações que os dois pilotos estão conversando sobre assuntos pessoais", relatou o tenente-coronel. 'Cultura de normalização de desvios' Cultura de informalidade fez com que pilotos não relatassem panes em diários de bordo Segundo Fróes, entre as irregularidades constatadas durante as investigações com voos anteriores ao do acidente, foi constatado, por exemplo, que pilotos e mecânicos deixavam de relatar em diários de bordo problemas em aeronaves e que auxiliares de mecânicos atuavam sem supervisão dos mecânicos. "Nós temos uma cultura organizacional de normalização de desvios dentro do operador", disse Fróes. "Essa normalização de desvios vem de uma cultura de informalidade, em que pilotos e mecânicos não relatavam as panes na aeronave em diário de bordo com a finalidade de que essa aeronave pudesse voar no dia seguinte", completou. Além disso, o Cenipa apontou que equipes de manutenção tinham o costume de reparar aviões com componentes de outra aeronave também em pane ou até mesmo usar componentes que já estavam com falha. Como era o avião que caiu em Vinhedo Arte g1 LEIA TAMBÉM: EXCLUSIVO: avião teve falha omitida em diário de bordo horas antes de decolar, diz testemunha Áudios inéditos mostram conversas entre pilotos e controle aéreo minutos antes da queda Bilhete de amor, terço e alianças: objetos saem intactos da tragédia e viram relíquias para famílias enfrentarem saudade Em agosto de 2024, um mês depois do acidente, o Cenipa divulgou um relatório preliminar que já apontava que, menos de dois minutos antes de o ATR cair, um alerta na cabine avisou a tripulação que o gelo prejudicava o desempenho da aeronave e que os pilotos comentaram sobre um problema no sistema antigelo logo no início do voo. Relembre aqui. O que foi analisado pelo Cenipa? Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo Entre os principais trabalhos realizados estão: análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo); reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave; exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol; análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente; entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes; estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia; testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500; análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos; análise de equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave; análise das lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda. Revisão internacional Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). Divulgação/FAB Antes da divulgação, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos. O documento foi analisado: pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500; e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave. Investigação criminal também está na reta final Familiares das vítimas do voo 2283 e advogados em reunião na Delegacia da Polícia Federal, em Campinas (SP) Arquivo pessoal Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia. A expectativa da PF é finalizar ainda em agosto. No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF. As conversas eram aguardadas porque poderiam ajudar a esclarecer os momentos finais do voo, incluindo se os pilotos comentaram ou acionaram o sistema de degelo — uma das hipóteses investigadas desde o acidente. Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos. O que diz a Voepass Em nota, a Voepass afirmou que a queda do voo 2283 foi "o episódio mais difícil" da história da companhia e disse seguir prestando apoio psicológico às famílias das vítimas. A empresa declarou que colaborou com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota "sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos", conforme os padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente. Relembre o acidente Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 O voo 2283 da Voepass caiu na tarde de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de Vinhedo, durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). As 62 pessoas a bordo - 58 passageiros e quatro tripulantes - morreram. Foi o acidente aéreo mais grave do Brasil desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. Logo após a tragédia, duas investigações foram abertas. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) passou a apurar os fatores que contribuíram para a queda e indicar medidas para evitar novos acidentes. Já a Polícia Federal iniciou um inquérito para apurar se houve crime e produzir um laudo próprio sobre o caso, já que o relatório do Cenipa não pode ser usado para responsabilização criminal. Um mês depois, o Cenipa divulgou o relatório preliminar da investigação. O documento confirmou que a aeronave enfrentou condições severas de formação de gelo e registrou que a tripulação relatou uma possível falha no sistema antigelo durante o voo. Também mostrou que o sistema foi acionado e desligado várias vezes ao longo da viagem, mas sem concluir se isso ocorreu por ação dos pilotos ou por outro motivo. O relatório, porém, não apontou a causa do acidente. Enquanto as investigações avançavam, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu as operações da Voepass, em março de 2025. Três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a companhia de operar voos comerciais. Na semana em que a tragédia completou um ano, o g1 publicou reportagens exclusivas sobre o caso. Uma delas revelou o relato de um ex-funcionário da Voepass de que um piloto havia informado verbalmente, horas antes do acidente, falhas no sistema antigelo durante um voo anterior, mas que o problema não foi registrado no diário técnico da aeronave. O g1 também publicou os áudios das conversas entre piloto e copiloto nos minutos que antecederam a queda. Em 30 de junho de 2026, familiares das vítimas tiveram acesso pela primeira vez às transcrições das conversas gravadas na cabine durante uma reunião com a Polícia Federal. Quase dois anos depois da tragédia, o Cenipa concluiu as investigações e divulgou o relatório final, que reúne a análise técnica do acidente e recomendações para aumentar a segurança da aviação e evitar novas tragédias. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/07/23/voepass-relatorio-final-aviao-queda-vinhedo.ghtml


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