Escola de Brasília é condenada a indenizar alunos que sofreram racismo durante campeonato de futebol
31/03/2026
(Foto: Reprodução) Escola é condenada a indenizar alunos que sofreram racismo durante campeonato de futebol
O Colégio Galois, instituição particular de Brasília, foi condenado pela Justiça do Distrito Federal a indenizar alunos que sofreram racismo durante campeonato de futebol, em 3 de abril de 2024. A decisão foi divulgada pela Defensoria Pública do DF nesta segunda-feira (30).
O caso aconteceu durante um jogo da "Liga das Escolas". Estudantes do Galois chamaram alunos da Escola Franciscana Nossa Senhora de Fátima de "macaco", "pobrinho" e "filho de empregada".
A Justiça determinou uma indenização de R$ 6 mil por danos morais para cada vítima. O Colégio Galois ainda deverá oferecer acompanhamento psicológico para vítimas por dois anos.
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Em nota enviada nesta terça (31), o Colégio Galois disse que , na ocasião do evento, "adotou todas as providências possíveis, incluindo a paralisação da partida e a advertência da torcida. Posteriormente, foi instaurada uma rigorosa investigação interna, que resultou na identificação de alguns alunos envolvidos, os quais foram devidamente punidos com o desligamento da instituição".
Sobre a decisão da Justiça, a escola falou que "apresentou o recurso cabível, por não concordar com a condenação decorrente de um ato isolado praticado por alguns indivíduos presentes durante uma partida de futebol" (veja íntegra no final da reportagem).
'Alunos abalados'
Em 10 de abril de 2024, a diretora-geral da Escola Franciscana Nossa Senhora de Fátima, Inês Alves Lourenço, publicou uma carta de repúdio. No texto, ela diz que os alunos foram vítimas de preconceito social e injúria racial.
"Os alunos do Colégio Galois proferiram diversas palavras ofensivas, tais como ‘macaco’, ‘filho de empregada’, ‘pobrinho’, tornando ambiente inóspito e deixando nossos alunos abalados", disse a diretora na carta.
Na carta de repúdio, a Escola Franciscana Nossa Senhora de Fátima diz que no momento das ofensas, vários responsáveis estavam no local e que "nenhuma providência efetiva e adequada foi adotada pelos prepostos do Colégio Galois que estavam presentes nas instalações do ginásio".
Depois, o Colégio Galois disse que iniciou uma investigação interna rigorosa.
"Estamos comprometidos em não apenas a identificar os envolvidos, mas também a aplicar medidas disciplinares e ampliar, ainda mais, ações educativas necessárias pertinentes", disse o Galois.
A escola disse ainda que "se solidariza com os alunos e a comunidade da Escola Franciscana Nossa Senhora de Fátima que se sentiram ofendidos e magoados".
'Senti muita raiva e muita tristeza’
Colégio Galois, instituição particular de Brasília
TV Globo
Uma das vítimas de racismo foi Lucas Gonçalves, de 16 anos, morador da Candangolândia. À época, o estudante contou que pegava ônibus todos os dias às 5h30 para chegar na escola Fátima. Era o primeiro ano do estudante em uma escola particular.
"Eles falaram: ‘Pega o preto na ala', de forma pejorativa. Pega o macaco. Falaram do cabelo dos nossos atletas também. Falaram diversas coisas desse tipo. Senti muita raiva e muita tristeza, porque a gente vai lá para jogar o futsal, para competir, e em nenhum momento faltou respeito com eles, e eles foram desse jeito", conta Lucas.
De acordo com o estudante, esse tipo de ofensa acontece há muito tempo com a escola Fátima, “pelo fato de ser uma escola que acolhe muitos atletas”. “Já nos preparam para isso, mas eu não imaginava que fosse dessa forma”, conta o aluno.
O capitão da equipe, Diego Riquelme, de 15 anos, morador de Ceilândia, disse que o time todo ficou abalado.
"Xingaram a nossa mãe, dizendo que era empregada, que tinha que lavar louça, lavar roupa e cantavam música relacionada a isso. Tem que sofrer punição, com certeza. Isso não é legal com ninguém.Você chegar em casa depois de um jogo e a sua mãe perguntar: ‘ah, filho, como foi o jogo?’ E você contar para ela o que aconteceu, sabe? É muito triste, é uma tristeza imensa", diz Diego.
O que diz o Sinepe
"O Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (SINEPE/DF) acompanha com atenção a decisão judicial relacionada a episódio de racismo ocorrido em ambiente escolar no DF e reforça que condutas racistas, praticadas por qualquer indivíduo, são inaceitáveis e devem ser enfrentadas com seriedade e responsabilidade.
A entidade destaca que as instituições de ensino têm papel fundamental na formação cidadã e devem atuar de forma permanente na prevenção, com ações educativas, capacitação de equipes e promoção do respeito à diversidade. Diante de qualquer ocorrência, é essencial que as escolas ajam imediatamente, acolham as vítimas e realizem o registro formal dos casos, assegurando transparência e acompanhamento adequado.
O SINEPE/DF tem atuado de forma contínua no apoio às escolas, por meio de ações de formação, orientação técnica e parcerias institucionais, com foco na promoção de ambientes educacionais seguros, inclusivos e respeitosos. A entidade também incentiva a adoção de protocolos e práticas que auxiliem na prevenção e no enfrentamento de situações de discriminação no ambiente escolar.
O SINEPE/DF ressalta, no entanto, que as escolas não detêm controle absoluto sobre as ações individuais dos estudantes, ainda que contribuam de forma decisiva para sua formação social. Nesse contexto, o ambiente escolar deve ser também espaço de orientação, mediação e aprendizado sobre convivência e respeito.
A entidade reforça que episódios como este devem servir como oportunidade de aprimoramento das práticas institucionais e de fortalecimento do diálogo entre escolas, famílias e sociedade. Ao mesmo tempo, alerta para a importância de que decisões dessa natureza considerem o papel pedagógico das instituições, evitando gerar insegurança ou desestímulo à promoção de atividades de integração, essenciais ao desenvolvimento dos estudantes."
O que diz o Colégio Galois
"O Colégio Galois não compactua com qualquer forma de discriminação, seja ela racial ou social.
Na ocasião do evento, a instituição adotou todas as providências possíveis, incluindo a paralisação da partida e a advertência da torcida. Posteriormente, foi instaurada uma rigorosa investigação interna, que resultou na identificação de alguns alunos envolvidos, os quais foram devidamente punidos com o desligamento da instituição.
No que se refere ao processo em questão, a escola apresentou o recurso cabível, por não concordar com a condenação decorrente de um ato isolado praticado por alguns indivíduos presentes durante uma partida de futebol.
Ademais, em parceria com o Ministério Público do Distrito Federal, firmou termo de compromisso para a implementação, em sua rotina diária, de atividades, estudos e palestras que visam promover o respeito ao próximo em seu sentido mais amplo.
Ressalta-se que o Colégio Galois é a única instituição de Brasília que possui uma Diretoria de Direitos Humanos, Inclusão e Diversidade voltada à formação dos alunos no que diz respeito às relações sociais e raciais.
A instituição reafirma seu compromisso permanente na promoção de um ambiente educacional pautado no respeito, na responsabilidade e na integridade das relações."
Entenda a diferença entre racismo e injúria racial
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