Piora súbita e aplicação de desinfetante: veja detalhes das mortes suspeitas de três pacientes em hospital particular do DF
19/01/2026
(Foto: Reprodução) Polícia investiga três homicídios na UTI de um hospital particular, em Taguatinga
Três técnicos de enfermagem que trabalhavam no hospital Anchieta em Taguatinga, no Distrito Federal, foram presos por suspeita de terem assassinado três pacientes entre novembro e dezembro de 2025.
Segundo as investigações, eles cometeram os crimes injetando doses altas de um medicamento nos pacientes – ou seja, usando o produto como um veneno.
Além desse medicamento, o técnico de enfermagem apontado como principal suspeito usou uma seringa para fazer 13 aplicações de desinfetante em uma das vítimas, uma mulher de 75 anos.
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Segundo a Polícia Civil, as 13 aplicações foram feitas no mesmo dia, após a paciente ter seis paradas cardíacas.
Em outra ocasião, o mesmo técnico, de 24 anos, usou a senha de um médico da instituição para emitir uma receita fraudulenta do medicamento.
Ele buscou o remédio na farmácia e aplicou nas três vítimas, sem consultar a equipe médica. A Polícia Civil do DF decidiu não divulgar o nome do medicamento.
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Duas aplicações foram feitas no dia 17 de novembro do ano passado e, a terceira, no dia 1° de dezembro. Segundo a Polícia Civil, para disfarçar a autoria do crime, o técnico de enfermagem fazia massagem cardíaca nos pacientes para tentar reanimá-los.
A investigação corre sob sigilo e, por isso, os nomes dos investigados não serão divulgados. O g1 tenta localizar o contato da defesa dos investigados.
Piora súbita
Hospital Anchieta em Taguatinga no DF.
TV Globo/Reprodução
De acordo com a diretora do Instituto Médico Legal, Márcia Reis, os pacientes tinham gravidades diferentes. Em todos os casos, a piora súbita das vítimas chamou a atenção do hospital e dos investigadores.
Nas imagens das câmeras de segurança da Unidade de Terapia Intensiva, onde os pacientes estavam internados, a Polícia Civil percebeu que os medicamentos eram aplicados em momentos de piora das vítimas.
As vítimas são:
a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75 anos, de Taguatinga;
o servidor público João Clemente Pereira, 63 anos, do Riacho Fundo I;
o servidor público Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos, de Brazlândia.
Em nota, a família de João Clemente disse que acreditava que a morte tinha ocorrido por "causas naturais". A informação sobre a suspeita de um crime só chegou na sexta (16).
Também em nota, o Hospital Anchieta disse que, "ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos na Unidade de Terapia Intensiva", instaurou um comitê interno para investigar os casos e, a partir dos resultados, pediu a abertura de um inquérito policial.
Os ex-técnicos de enfermagem supostamente envolvidos nos crimes foram demitidos e as famílias das vítimas foram informadas, "prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora" (veja as íntegras das notas abaixo).
Prisões
De acordo com a Polícia Civil, as prisões dos ex-técnicos de enfermagem aconteceram no último dia 11. Na ocasião, os agentes também cumpriram três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás.
A segunda fase da mesma operação foi deflagrada na última quinta-feira (15), quando foram apreendidos dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.
A Polícia Civil ainda apura se existem outros casos no Hospital Anchieta e em outras unidades de saúde onde o homem de 24 anos atuou.
O que diz o Hospital Anchieta
"O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.
Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.
Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.
Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.
O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.
O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a justiça."
O que diz o Conselho de Enfermagem
"O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) informa que tomou conhecimento dos fatos noticiados pela imprensa envolvendo mortes suspeitas de pacientes em uma unidade hospitalar do Distrito Federal.
Diante da gravidade das informações divulgadas, o Coren-DF esclarece que está acompanhando o caso e adotando as providências cabíveis no âmbito de sua competência legal.
Ressalta-se que o caso também está sob investigação das autoridades competentes e tramita na esfera judicial. Dessa forma, neste momento, não é possível emitir juízo de valor ou qualquer conclusão definitiva, devendo ser respeitados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa dos envolvidos.
O Conselho segue compromissado com a segurança do paciente, a ética profissional e a defesa de uma enfermagem qualificada, responsável e comprometida com a vida."
O que diz a família do servidor de 63 anos
"A família da vítima, por intermédio de seus advogados, manifesta profundo pesar e indignação pelos fatos graves ocorridos no interior da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta de Taguatinga, ambiente que deveria garantir cuidado máximo e proteção à vida.
Até então, a família acreditava que o falecimento havia ocorrido por causas naturais, em razão do quadro clínico apresentado. Contudo, no dia 16 de janeiro, tomou conhecimento de informações que indicam circunstâncias graves e incompatíveis com uma morte natural, bem como da existência de outras duas possíveis vítimas, passando a compartilhar a dor e o sofrimento de suas famílias.
O crime, supostamente praticado por técnico de enfermagem atualmente investigado, bem como por outros possíveis envolvidos, reveste-se de extrema gravidade. As apurações encontram-se em trâmite sob sigilo, e a família ainda não teve acesso aos autos do inquérito policial, razão pela qual se abstém de comentar detalhes do caso neste momento.
A família confia na atuação da Polícia Civil do Distrito Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário, e adotará todas as medidas legais cabíveis para a responsabilização criminal dos envolvidos, bem como para a responsabilização civil do hospital, diante de eventuais falhas no dever de cuidado, vigilância e segurança, visando à apuração integral dos fatos e à devida reparação."
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